
A Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) é uma condição multifatorial, ainda amplamente subdiagnosticada, com repercussões diretas na saúde cardiovascular, metabólica, cognitiva, psicológica e na qualidade de vida de muitas pessoas.
O ronco costuma ser o sintoma mais lembrado, mas, na prática clínica, sabemos que ele está longe de ser o problema maior. Roncar não é sinônimo de apneia, e o diagnóstico não pode se apoiar em um único sinal isolado.
Para nós, profissionais da saúde, estruturar corretamente esse diagnóstico é essencial para evitar tratamentos incompletos, indicar a abordagem mais adequada e compreender o real impacto sistêmico da AOS naquele paciente.
Diagnóstico da AOS: um olhar integrado e necessariamente multidimensional
A Apneia Obstrutiva do Sono não se diagnostica com um único exame. Ela exige integração de informações clínicas, funcionais e de exames. Na prática, esse diagnóstico se sustenta em três pilares fundamentais:
- Anamnese bem conduzida
- Exame clínico detalhado
- Exames complementares, com destaque para a polissonografia
Quando esses pilares são analisados em conjunto, reduzimos vieses, aumentamos a acurácia diagnóstica e conseguimos orientar melhor a conduta terapêutica: seja ela comportamental, clínica ou com dispositivos.
Questionários clínicos: ferramentas de triagem, não de fechamento diagnóstico
Questionários validados têm papel importante na prática clínica, desde que utilizados com clareza do seu limite. A Escala de Sonolência de Epworth ajuda a quantificar a sonolência diurna em situações do cotidiano. Pontuações elevadas sugerem impacto funcional do sono não reparador, mas não são específicas para AOS.
O questionário STOP-BANG, amplamente utilizado, estratifica risco a partir de dados objetivos como ronco, fadiga, apneias observadas, hipertensão, IMC, idade, circunferência cervical e sexo. Pontuações intermediárias ou altas indicam a necessidade de investigação mais aprofundada, sobretudo quando associadas a comorbidades. Já o questionário de BERLIM relaciona eventos testemunhados de ronco e apneia, sintomas de fadiga e sonolência diurna e sintomas como pressão arterial e obesidade (através do IMC, índice de massa corporal)
📌 Esses instrumentos direcionam a investigação, mas não substituem o diagnóstico clínico nem a polissonografia.
Anamnese: muitas vezes, o paciente não percebe o próprio distúrbio
É comum que o paciente não reconheça seus próprios sinais. Por isso, a anamnese precisa ser ativa, dirigida e investigativa.
É fundamental explorar:
- Sintomas noturnos: ronco, engasgos, pausas respiratórias, sudorese, taquicardia
- Sintomas diurnos: sonolência, fadiga, alterações cognitivas, de apetite e de humor
- Rotina e higiene do sono
- Hábitos de vida (álcool, tabaco, sedentarismo)
- Uso de medicamentos
- Presença de comorbidades (HAS, obesidade, diabetes, refluxo, depressão)
Fatores clínicos preditivos: o que realmente pesa na suspeita de AOS
Alguns achados clínicos apresentam maior valor preditivo e merecem atenção especial:
- Ronco associado à nictúria, com alta sensibilidade
- Idade acima de 50 anos
- Predomínio no sexo masculino
- Circunferência cervical e abodminal aumentadas
A sonolência diurna isolada, embora relevante, apresenta sensibilidade limitada quando avaliada fora de um contexto clínico mais amplo.
Exame físico: quando o corpo já está mostrando o caminho
O exame físico oferece pistas importantes e, muitas vezes, subvalorizadas.
O Índice de Massa Corporal (IMC) elevado se associa diretamente ao aumento da gravidade da AOS, especialmente acima de 30 kg/m².
A circunferência cervical é, provavelmente, o melhor preditor antropométrico da gravidade dos distúrbios respiratórios do sono. Pescoços curtos e largos indicam maior risco e também pior prognóstico terapêutico com dispositivos intraorais.
A avaliação orofacial e intraoral deve incluir:
- Perfil facial e esquelético
- Volume e posicionamento da língua
- Úvula
- Amígdalas palatinas (classificação de Brodsky)
- Mallampati modificado (classes III e IV sugerem maior risco)
- Avaliação da ATM, abertura bucal e amplitude protrusiva
Esses dados impactam diretamente a escolha da terapia e a expectativa de resposta.
Caminhos terapêuticos: da suspeita clínica à intervenção adequada
https://drive.google.com/file/d/1-gney-wOVAqEuRYyk0xHIN8gc8L-Xzha/view?usp=drive_link
(Uso do aparelho intra-oral)
Quando a AOS é identificada de forma correta, o tratamento deixa de ser genérico e passa a ser personalizado, respeitando gravidade, biotipo, comorbidades e capacidade de adesão do paciente.
Aqui, trabalhamos com uma abordagem integrada da odontologia do sono, sempre em diálogo com médicos e outros profissionais da saúde (fisioterapeutas e fonoaudiólogos). Nosso foco não é apenas reduzir índices, mas melhorar a função respiratória, qualidade do sono e saúde sistêmica.
Nos casos de apneia leve a moderada, realizamos avaliação criteriosa para indicação de dispositivos intraorais de avanço mandibular, considerando fatores anatômicos, funcionais e articulares. Esses dispositivos, quando bem indicados e acompanhados, podem oferecer excelente resposta clínica, com boa adesão e impacto positivo na qualidade de vida.
Para pacientes com apneia moderada a severa, com dessaturações importantes ou múltiplas comorbidades, o CPAP segue sendo a terapia de escolha. Nesses casos, atuamos de forma integrada, auxiliando na triagem, no acompanhamento e na adaptação do paciente ao tratamento, sempre que necessário.
https://drive.google.com/file/d/1Sp9R22rwHnx89OaO8M0c4w5q2CxBsAqS/view?usp=drive_link
(Uso do CPAP)
Como parte do processo diagnóstico, contamos também com polissonografia tipo IV para triagem, realizada no consultório, que nos ajuda a identificar pacientes de risco e direcionar de forma mais ágil para o exame padrão-ouro (polissonografia tipo I ou II).
Mais do que escolher entre dispositivo intraoral odontológico ou CPAP, acreditamos que tratar a apneia do sono exige escuta clínica, integração entre especialidades e acompanhamento contínuo. A AOS não é um problema isolado, ela atravessa sistemas, hábitos e fases da vida.
Sempre, atuamos como suporte para colegas encaminhadores na triagem, estratificação e tratamento odontológico da AOS, com base em dados objetivos e acompanhamento compartilhado. Encaminhamentos costumam ser especialmente úteis quando o paciente apresenta:
- AOS leve a moderada em PSG (tipo I/II) e busca de alternativa ao CPAP
- Intolerância, baixa adesão ou recusa ao CPAP, mesmo nos casos severos
- Ronco importante com suspeita clínica de AOS (STOP-BANG intermediário/alto)
- Biotipo e exame orofaríngeo sugestivos (circunferência cervical aumentada, Mallampati III/IV, alteração craniofacial, retrognatia)
- Bruxismo, dor orofacial, cefaleias matinais e sinais de hiperatividade muscular associados a sono fragmentado
- Necessidade de triagem inicial (polissonografia tipo IV) para acelerar o fluxo de investigação.
https://drive.google.com/file/d/160t_DjUwCylmjwWh6-nmbTAy66zuVpqG/view?usp=drive_link
(Polissonografia tipo 3)
Nós recebemos o paciente encaminhado com um objetivo bem claro: transformar suspeita em conduta bem indicada e acompanhada. Fazemos uma avaliação odontológica do sono completa, com foco em via aérea superior, função respiratória noturna e fatores anatômicos que influenciam resposta terapêutica (protrusão, ATM, tônus muscular, Mallampati, língua, perfil craniofacial e circunferência cervical). Quando faz sentido para acelerar o fluxo, realizamos polissonografia tipo IV como triagem, ajudando a direcionar o paciente de forma mais ágil e responsável para a polissonografia tipo I/II (padrão ouro) e para o médico otorrinolaringologista especialista em sono para a definição de causas de obstrução e gravidade.
E, nos casos em que o paciente é candidato, eu valorizo muito os dispositivos intraorais de avanço mandibular: eles são uma alternativa clínica extremamente relevante, especialmente na AOS leve a moderada, e também para quem tem baixa adesão ou intolerância ao CPAP. Quando bem indicados e bem acompanhados, esses aparelhos não são “um protetor” — são um recurso terapêutico funcional que reduz a colapsibilidade da via aérea, melhora o ronco e qualidade do sono e, principalmente, tende a ter excelente adesão no mundo real.
Aqui, a indicação é criteriosa (não “serve para todo mundo”),o ajuste é progressivo, e o acompanhamento é contínuo, com atenção à oclusão, ATM e sintomas — e com a recomendação de controle objetivo por polissonografia após a intervenção. Quando o quadro é severo, ou há dessaturações importantes e comorbidades relevantes, o CPAP permanece central, e nosso papel é integrar: apoiar o paciente na jornada, orientar o que está ao nosso alcance do ponto de vista funcional e manter o diálogo com o colega encaminhador para co-manejo seguro.
Se você encaminha para nós, você não está “terceirizando” o caso: você está adicionando uma camada de avaliação e tratamento que muitas vezes aumenta adesão, melhora desfecho e dá ao paciente mais uma chance real de tratar a AOS de forma consistente.
Odontologia do Sono, encaminhamentos: avaliação estruturada, critério técnico e acompanhamento compartilhado.
📍 Rua Santos Dumont, 182 – Centro, Florianópolis
