Como ainda temos cárie no século 21? - Centro Conscientia
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Odontologia Integrativa

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A ciência estuda a cárie há quase duzentos anos. Açúcar, biofilme, acidez, desmineralização, bactérias, dieta e higiene bucal são temas conhecidos há décadas. Mesmo assim, ela continua sendo uma das doenças crônicas mais comuns do planeta.

AOrganização Mundial da Saúde informa que a cárie dentária não tratada em dentes permanentes é a condição de saúde mais comum segundo o Global Burden of Disease 2021. A própria OMS também reforça que muitas doenças bucais compartilham fatores de risco com doenças crônicas, como consumo elevado de açúcares, tabaco, álcool e alimentação inadequada.

Então a pergunta é inevitável: como ainda temos cárie em pleno século XXI?

No meu dia a dia clínico, vejo que a resposta é simples, embora profunda: o dente não vive isolado em uma caixinha. Ele faz parte de uma boca viva, de uma rotina real, de escolhas diárias, de uma saliva, de um microbioma, de uma alimentação, de um corpo e de uma vida.

Cuidar de prevenção e cuidar da nossa alimentação são a mesma conversa. E a nossa imunidade é uma grande guardiã desse sistema.

A cárie não é só um buraco no dente

A maioria de nós cresceu ouvindo que a cárie é apenas um buraquinho no dente que precisa ser “tapado”. Mas a odontologia contemporânea ampliou essa visão.

Hoje, entendemos a cárie como um processo dinâmico e contínuo de desequilíbrio. Ela está relacionada ao biofilme, à exposição frequente a açúcares e carboidratos refinados, à acidez, à saliva, ao tempo de exposição e à capacidade de remineralização do dente.

ONational Institute of Dental and Craniofacial Research explica que alimentos e bebidas com açúcar ou amido, quando entram em contato com a placa bacteriana, favorecem a produção de ácidos. Quando esses ataques ácidos se repetem com frequência, o esmalte continua perdendo minerais.

Antes de surgir qualquer cavidade, o esmalte pode dar sinais de alerta: pequenas manchas esbranquiçadas, opacas e quase imperceptíveis a olho nu. Elas costumam aparecer entre os dentes, em locais onde a escova tem mais dificuldade de alcançar ou na superfície mastigatória de dentes jovens.

A boa notícia é que, em fases iniciais, o corpo ainda tem recursos para estabilizar esse processo. Com boa nutrição, higiene adequada, saliva saudável, controle da frequência alimentar e acompanhamento profissional, podemos fortalecer o ambiente antes que o “motorzinho” precise entrar em ação.

O dente é apenas uma parte do ecossistema

A nossa boca é uma verdadeira floresta microscópica. Ela abriga centenas de espécies de bactérias e microrganismos que formam o microbioma oral.

Quando essa comunidade convive em harmonia, ela protege gengivas, participa do início da digestão e fortalece as defesas locais. Quando esse equilíbrio se quebra, estado que chamamos de disbiose, o biofilme se torna mais agressivo e pode favorecer inflamações, gengivite, mau hálito, periodontite e desmineralização do dente.

Por isso, apenas restaurar o dente não resolve a causa. Uma restauração reconstrói a anatomia e devolve a mastigação, mas não modifica sozinha o ambiente biológico que permitiu a doença aparecer.

No artigoMicrobioma Oral: como ele influencia sua saúde, imunidade e equilíbrio do corpo, explico como a saúde da boca conversa diretamente com a imunidade e o bem-estar do corpo inteiro.

No consultório, é comum atender pessoas que trocam restaurações há anos sem nunca terem compreendido por que têm tantas cáries. Em vez de perguntar apenas “qual dente precisa de obturação?”, a pergunta essencial deve ser: “o que no estilo de vida e no organismo dessa pessoa está criando um ambiente favorável à doença?”.

Alimentação: tempo, frequência e qualidade importam

Quando pensamos em alimentação e cárie, o costume é prestar atenção somente no que comemos. Mas o intervalo e a frequência dos lanches ao longo do dia são tão determinantes quanto o cardápio.

Toda vez que ingerimos algo doce, refinado ou muito fermentável, o pH da boca cai e o meio fica ácido. A saliva precisa de tempo para neutralizar essa acidez e proteger os dentes. Quem “belisca” o dia inteiro mantém a boca em constante desafio ácido.

Um alimento doce consumido rapidamente dentro de uma refeição pode ter impacto diferente de pequenos goles de bebida açucarada ao longo do dia, balas grudadas nos dentes ou lanches frequentes que não permitem à saliva restabelecer o equilíbrio.

Também é importante lembrar que mastigar alimentos de verdade, como frutas frescas, verduras, legumes, castanhas e grãos integrais, exerce uma limpeza física natural nos dentes e estimula a produção de saliva protetora.

Comer bem é, sem dúvida, um dos maiores atos de prevenção.

A qualidade e a quantidade da saliva

A saliva é um verdadeiro elixir de saúde para a boca e para o sistema digestivo.

Muito mais do que um líquido lubrificante, ela contém cálcio, fosfato, enzimas e anticorpos naturais. Participa da remineralização, protege mucosas, ajuda a neutralizar ácidos, inicia a digestão e contribui para o equilíbrio do microbioma oral.

Quando uma pessoa apresenta hipossalivação ou boca seca, os dentes ficam mais desprotegidos. Isso pode acontecer pelo uso de medicamentos contínuos, ansiedade, pouca hidratação, respiração oral, alterações hormonais, sono ruim ou estresse crônico.

Manter boa ingestão de água e mastigar alimentos ricos em fibras ajuda a estimular uma saliva mais fluida, abundante e quimicamente ativa. Na odontologia integrativa, a saliva nunca é um detalhe. Ela é parte fundamental da proteção do sorriso.

Estresse também entra nessa história

Pode parecer estranho conectar estresse e cárie, mas essa relação aparece com frequência no consultório.

Você já sentiu a boca ficar seca em um momento de tensão? O estresse prolongado altera a química da saliva, pode reduzir seu volume, enfraquecer a imunidade local e interferir nos cuidados diários com o corpo e a higiene.

Noites mal dormidas, respiração pela boca, bruxismo, apertamento dentário e sobrecarga emocional geram um desgaste sistêmico que a boca sente de imediato.

Como compartilhei no artigoSeu dente sente o seu estresse?, as estruturas bucais expressam com precisão muitas das tensões físicas e emocionais que carregamos.

Por isso, quando avalio um paciente com cáries recorrentes, observo sono, respiração, rotina, alimentação, saliva, microbioma oral, bruxismo, medicamentos e fase de vida.

E o flúor e os antissépticos orais?

Esse é um diálogo que merece clareza, equilíbrio e respaldo científico.

O flúor tem evidências importantes na prevenção da cárie, especialmente em políticas públicas e contextos de maior risco. Ao mesmo tempo, existem discussões científicas sobre dose, exposição sistêmica, idade, contexto, vulnerabilidade individual e possíveis efeitos de exposições elevadas.

Uma meta-análise publicada noJAMA Pediatrics trouxe reflexões relevantes sobre a associação entre exposição ao flúor e escores de QI infantil em estudos epidemiológicos. Esse tema exige debate sério, sem simplificações.

No Centro Conscientia, minha posição não é baseada em medo nem em negação da ciência. É baseada em critério.

Hoje, também contamos com biomateriais modernos e biocompatíveis, como a hidroxiapatita nanoparticulada, mineral que compõe a estrutura do próprio dente e pode favorecer a remineralização em determinados contextos.

Da mesma forma, o uso rotineiro de enxaguantes bucais antibacterianos muito fortes merece cautela. Ao eliminar indistintamente todas as bactérias, eles também podem prejudicar microrganismos protetores importantes para a imunidade local.

O problema não é discutir flúor ou antissépticos. O problema é tratar todo paciente como se fosse igual.

Como a odontologia integrativa olha para a cárie

Na odontologia integrativa e biológica, a cárie é compreendida como um sinal de desequilíbrio do ambiente bucal.

Na consulta, olhamos para a pessoa como um todo: alimentação, microbioma oral, biofilme, saliva, pH, respiração, sono, estresse, higiene, histórico de restaurações, materiais presentes na boca, refluxo, medicamentos, hábitos familiares e vulnerabilidade individual do dente.

Quando existe lesão cavitada, restaurar pode ser necessário. Mas, quando há sinais iniciais ou risco aumentado, o cuidado pode envolver estratégias para estabilizar o processo, fortalecer o ambiente bucal, orientar alimentação, melhorar higiene, estimular saliva, reorganizar hábitos e acompanhar com precisão.

Também considero importante escolher materiais restauradores de forma consciente. No artigoEvolução da Odontologia Biológica: quando o cuidado começa pela escolha dos materiais, falo sobre biocompatibilidade e sobre como tudo o que permanece na boca precisa conversar com tecidos, saliva e microbioma.

Dicas para evitar a cárie

  • Redobre o cuidado em fases de maior vulnerabilidade, como infância, envelhecimento, uso de medicamentos, boca seca e surgimento dos primeiros dentes da dentição de leite ou permanente.
  • Descasque mais e desembale menos. Priorize alimentos naturais, vegetais crus, frutas frescas, legumes e alimentos que exigem mastigação ativa.
  • Lembre que frutas secas, mel, balas e alimentos pegajosos podem ser muito cariogênicos pela concentração de açúcar e aderência aos dentes.
  • Evite bebidas açucaradas e refrigerantes. Beba água limpa e filtrada ao longo do dia.
  • Inclua gorduras boas nas refeições, como azeite de oliva extravirgem, abacate, nozes e sementes.
  • Escolha produtos de higiene suaves, sem abrasivos agressivos ou químicos irritantes.
  • Cuide diariamente da higiene entre os dentes com fita dental ou irrigadores orais bem indicados, porque o biofilme também se acumula onde a escova não alcança.

A pergunta mudou

No século XXI, tratar cárie não deveria ser apenas encontrar o buraco e restaurar.

A pergunta precisa ser mais ampla: que ambiente permitiu essa lesão? Como está a saliva? Como está o microbioma oral? Qual é a frequência de exposição ao açúcar? Esse paciente respira bem? Dorme bem? Está em estresse crônico? Tem boca seca? Consegue sustentar autocuidado na rotina real?

A cárie é uma doença conhecida, mas ainda muito presente porque não acontece apenas no laboratório. Ela acontece na vida.

Se você tem cáries recorrentes, restaurações frequentes, sensibilidade ou sente que seus dentes parecem sempre vulneráveis, talvez seja hora de investigar o ecossistema da sua boca com mais profundidade.

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Centro Conscientia | Florianópolis – SC
Odontologia Integrativa e Biológica
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