
Entenda quando não é insônia e sim o cronotipo do adolescente.
Se você é mãe ou pai de um adolescente, talvez essa cena seja familiar: seu filho demora horas para pegar no sono, acorda com dificuldade, parece cansado durante o dia e, à noite, “ganha energia” justamente quando a casa inteira já está desacelerando.
A pergunta surge quase sempre com angústia: “Meu filho tem insônia?”
Na maioria dos casos, a resposta é: não exatamente.
Adolescentes não dormem mal: dormem em outro horário.
Na adolescência, o corpo entra numa “reprogramação” real. Hormônios, cérebro, emoções e metabolismo mudam — e o sono é um dos primeiros a sentir.
Um ponto central aqui é o ritmo circadiano, guiado pelo cronotipo (o relógio biológico que define se a pessoa tende a funcionar melhor cedo ou render mais no fim do dia). Nos adolescentes, acontece algo bem típico: a melatonina passa a ser liberada mais tarde, e o sono “escorrega” para horários noturnos mais avançados.
Isso não é doença. Na maioria das vezes, é fisiologia: algo como um cronotipo mais vespertino, comum nessa fase da vida. Dorme mais tarde, acorda mais tarde, dorme muito.
⚠️ E vale um cuidado importante: nem todo adolescente é igual.
Alguns conseguem dormir cedo sem grande dificuldade. Outros sofrem muito mais para “desligar”. Essa diferença depende de genética, hábitos, ambiente (luz/telas),nível de estresse e saúde geral.
O problema aparece quando a biologia bate de frente com a rotina: o corpo pede sono mais tarde, mas a escola exige acordar cedo. A conta não fecha — e os sinais aparecem:
- dificuldade para pegar no sono
- sono fragmentado
- cansaço constante
- irritabilidade
- dificuldade de concentração
- alterações de humor
Com o tempo, isso pode ser confundido com insônia, “falta de disciplina” ou apenas telas em excesso (que podem piorar bastante esse quadro).
https://drive.google.com/file/d/1XbuEMnv16Tu-rhldFZPAsysEXL4VUNBS/view?usp=drive_link
Muitas vezes, a família está tentando “consertar” algo que não está quebrado — o corpo só está tentando se adaptar ao próprio ritmo.
Quando o sono não vem, quase nunca é “só sono”. É o corpo pedindo leitura.
Na visão integrativa, o sono não é um evento isolado — ele é um termômetro do organismo. Ele mostra como estão o sistema nervoso, a respiração, o nível de tensão, os hábitos e até a forma como esse jovem está lidando com a vida.
Além do cronotipo, alguns fatores costumam pesar muito no sono do adolescente:
- alimentação (especialmente açúcar/ultraprocessados e horários irregulares)
- nível de atividade física e exposição à luz natural
- estresse emocional e ansiedade
- ritmo de vida acelerado (muito estímulo, pouca pausa)
- tensão muscular e hiperalerta
- bruxismo e apertamento dentário
- respiração alterada, principalmente respiração bucal e respiração noturna inadequada
E aqui a odontologia costuma trazer pistas valiosas: a boca é uma grande mensageira desses desequilíbrios. Respiração oral, apertamento, dores orofaciais e cefaleias são sinais frequentes em adolescentes que “não conseguem desligar” — não por falta de vontade, mas porque o corpo continua em estado de alerta quando deveria entrar em reparo.
E as telas? Aqui eu costumo ser bem direta: elas são cofatores protagonistas nesse atraso progressivo do sono na adolescência. As telas não são inocentes — à noite, elas estimulam o cérebro, mantêm o sistema nervoso em estado de alerta e ainda inibem a liberação de melatonina, especialmente pela exposição à luz (e pelo conteúdo que “prende” a atenção).
Quase nunca são a única causa, mas pioram muito um corpo que já tende a ficar mais desperto no período noturno: atrasam ainda mais o início do sono, aumentam a dificuldade de “desligar” e podem fragmentar a qualidade do descanso, mesmo quando o adolescente finalmente pega no sono.
O sono é um dos pilares da saúde. Quando ele não acontece de forma profunda e restauradora, todo o organismo sente. Em adolescentes, isso pode impactar:
- aprendizado e memória
- desenvolvimento emocional
- atenção e sociabilidade
- sistema imunológico
- saúde mental
- qualidade de vida
Por isso, antes de rotular como insônia, é fundamental entender a causa real.
O relógio biológico do adolescente, em muitos casos, realmente se desloca para mais tarde. Ele sente sono mais tarde e, na mesma proporção, tem uma dificuldade concreta de acordar cedo — não é “falta de organização”, é fisiologia. O que costuma descompensar tudo é que essa tendência natural encontra um ambiente moderno cheio de luz artificial e telas à noite, que empurram o sono ainda mais para frente.
E aí aparece um atalho comum: “vamos dar melatonina”. Só que, sem orientação, isso nem sempre resolve — porque o problema raramente é apenas “falta do hormônio”, e sim o ritmo inteiro desalinhado.
O que costuma ajudar de verdade é uma orientação cuidadosa, ajustando ambiente e hábitos de forma consistente: reduzir intensidade de luz na casa e quarto do adolescente depois do escurecer, reduzir telas no período noturno, manter um horário regular de despertar (mesmo nos fins de semana),garantir exposição à luz da manhã e construir uma rotina noturna mais tranquila, com menos estímulos e mais previsibilidade.
Nem todo sono difícil é insônia. Às vezes, o adolescente não precisa de cobrança — precisa de acolhimento e tempo para o corpo reencontrar o próprio compasso.
Dormir bem não é apenas “apagar”. É entrar em um estado profundo de reparo físico, emocional e neurológico.
Mais do que “corrigir” o sono, o que costuma funcionar é criar um ambiente que ajude o corpo a fazer o que ele já sabe. Pequenos ajustes, feitos com constância e carinho familiar, têm um impacto muito maior do que soluções rápidas ou impositivas.
Algumas estratégias simples e eficazes:
- Conversar sobre o sono (sem briga)
- Tirar telas do quarto
- Definir horário limite para telas (com carinho)
- Baixar as luzes da casa à noite
- Criar rotina de “desacelerar” (banho, música, silêncio)
- Ler um livro com o jovem (10 min já ajuda)
- Incentivar esporte/atividade física regular (evitar que seja perto da hora de dormir)
- Estar em grupos positivos de jovens (esporte, igreja, escoteiros, comunidade)
- Pegar sol de manhã cedo logo ao acordar (mesmo 10–15 min)
- Manter horário de acordar no fim de semana
- Cuidar da alimentação (menos açúcar/ultraprocessados, com ênfase de noite)
Às vezes, o que parece insônia é apenas um corpo pedindo escuta, ajuste e compreensão.
https://drive.google.com/file/d/1T0cPwL07VCioAPuXpmrp28e0NiuGmyrD/view?usp=drive_link
Se o sono do seu filho anda desalinhado, talvez o primeiro passo não seja forçar horários, mas entender o que o corpo dele está comunicando. A saúde começa quando paramos de lutar contra os sinais e passamos a interpretá-los.
Cuidando da saúde de dentro para fora, em todas as fases da vida.
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