
Se você acompanha pacientes com diabetes ou artrite reumatoide (AR),já viu o padrão: ajuste de medicação, dieta e sono melhoram parcialmente — mas a inflamação “não zera”. Um dos focos subestimados nessa equação é a inflamação periodontal crônica, capaz de manter sinalização inflamatória sistêmica, interferir no controle glicêmico e, possivelmente, modular vias autoimunes em indivíduos suscetíveis.
A proposta aqui é objetiva: o que a evidência sugere, quais mecanismos são mais plausíveis e como transformar isso em triagem e encaminhamento clínico.
Periodontite como “foco inflamatório” sistêmico: o que interessa ao médico e ao time multiprofissional
Periodontite não é apenas “sangramento gengival”. É uma doença inflamatória crônica associada à disbiose do biofilme, ulceração do epitélio sulcular, aumento da sua permeabilidade, aumento de mediadores inflamatórios circulantes e bactérias gram negativas patogênicas. Em termos clínicos, funciona como um input inflamatório persistente, com potencial de somar carga inflamatória em pacientes com comorbidades metabólicas e imunomediadas.
Do ponto de vista do manejo compartilhado, a pergunta útil é: há um foco oral ativo sustentando inflamação de baixo grau?
https://drive.google.com/file/d/1zeu4-QcGOjGenA93JBLFAdooII-2PP6B/view?usp=drive_link
Diabetes ↔ periodontite: o ciclo bidirecional “clássico” que ainda é pouco rastreado na prática
A associação bidirecional entre diabetes e periodontite é bem estabelecida na literatura: diabetes aumenta risco e gravidade de periodontite; periodontite pode dificultar o controle glicêmico.
Como a hiperglicemia piora a inflamação periodontal (resumo mecanístico)
Em linhas gerais, a hiperglicemia crônica se associa a:
maior suscetibilidade a infecção/disbiose e pior resposta de reparo tecidual;
aumento de mediadores inflamatórios e estresse oxidativo;
micro alterações vasculares que comprometem a cicatrização e defesa local.
Esse conjunto favorece a inflamação gengival persistente e progressão periodontal em parte dos pacientes.
Como a periodontite pode atrapalhar o controle glicêmico
A periodontite mantém um estado de inflamação sistêmica de baixo grau, com potencial de interferir na sensibilidade à insulina. O efeito clínico esperado não é “milagre”, mas piora de controle em um subconjunto, especialmente quando há sangramento e bolsas ativas.
https://drive.google.com/file/d/1Sm10eZEmoFwBA8W4HJNYRsnQkFi3qu8v/view?usp=drive_link
Artrite reumatoide e bactérias orais: quando a boca conversa com a autoimunidade
A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune inflamatória, e há um interesse crescente em entender como certos microrganismos (inclusive orais) podem modular o sistema imune.
Dois nomes aparecem com frequência na literatura: Porphyromonas gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans, associados à periodontite e investigados como potenciais participantes de processos ligados à autoimunidade na AR.
Uma das hipóteses mais discutidas é que P. gingivalis pode influenciar um processo chamado citrulinização, que está relacionado ao surgimento de anticorpos específicos vistos na artrite reumatoide (como os ACPA/anti-CCP). Isso não significa que “a bactéria causa AR” de forma direta e simples, mas sugere um caminho biológico plausível de interação entre boca e sistema imune.
Há também estudos recentes explorando anticorpos contra componentes de P. gingivalis em fases de risco para AR, reforçando a conexão entre exposição/origem oral e marcadores imunológicos.
Como a odontologia integrativa entra aqui (na prática)
No Centro Conscientia, a ideia é integrar saúde bucal e saúde global com avaliação individualizada e decisões clínicas biocompatíveis, respeitando o momento sistêmico do paciente.
Em geral, o caminho envolve:
Avaliação periodontal completa (profundidade de sondagem, sangramento, mobilidade, biofilme)
Controle do biofilme com foco em inflamação e função, não só estética
Orientações personalizadas de higiene e hábitos (incluindo respiração e rotina)
Integração com o time médico (endócrino/reumato) quando necessário
Acompanhamento: periodontite é doença crônica e o controle é um processo
Perguntas frequentes
Quem tem diabetes precisa ir ao dentista com mais frequência?
Com frequência, sim — porque o risco de doença gengival pode ser maior e o controle periodontal pode influenciar o equilíbrio inflamatório. A periodicidade ideal depende do seu exame clínico.
Doença periodontal pode “subir” minha glicose?
Ela pode dificultar o controle por manter o corpo em inflamação crônica. É por isso que a relação é chamada de bidirecional.
Artrite reumatoide causa problemas na boca?
AR e saúde bucal podem se relacionar por vias inflamatórias e imunológicas; além disso, alguns pacientes podem ter maior predisposição a inflamação gengival. O ponto principal é: fundamental investigar e acompanhar.
Só antibiótico resolve?
Em doenças periodontais, antibiótico isolado raramente é solução. O tratamento base envolve um programa anual, iniciado às vezes com cobertura antibiótica e remoção mecânica do biofilme, que se estende num programa anual progressivo para readequar o microbioma, o conjunto de bactérias da boca; o acompanhamento é fundamental até que se atinja estabilidade e saúde.
A boca como componente do cuidado inflamatório sistêmico
Diabetes e artrite reumatoide são exemplos didáticos de um princípio maior: a cavidade oral pode refletir e amplificar inflamação sistêmica. Para o cuidado moderno (integrado),rastrear periodontite deixa de ser “detalhe odontológico” e passa a ser estratégia clínica.
No Centro Conscientia, conduzimos avaliação periodontal dentro de uma abordagem integrativa/biológica e com vocação para diálogo com outros profissionais de saúde, justamente para fechar esse ciclo de cuidado multiprofissional.
Para encaminhar um paciente, indique “avaliação periodontal para investigação/controle de foco inflamatório” e nossa equipe retorna com os achados e plano de tratamento.
Dra Elisa Baumgarten
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